sexta-feira, 6 março, 2026
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Por que o primeiro Natal foi estranho?

Este é um tempo muito festejado. Ano após ano, o Natal não deixa de pôr seus acentos. A gente o vê em toda parte. Comemora quem crê. E também festeja quem não crê.

E convém que assim seja. Afinal, Deus está Conosco, no Natal. A gente se alegra com esta maravilha que é nosso Deus. Não é mera ideia, nem é alguma ilu­são, e muito menos um tipo de construção. Ele é presença entre nós.

Tudo isso é muito com reto, tem data e local, acontece em Belém, na manjedoura, em torno de um menino. Assim aparece a amizade de Deus por nós: concreta, palpável. Vale a pena comemorar tamanha amizade, tão maravilhoso achego de Deus em nossa vida. O que, aliás, vale para crentes e descrentes.

Mas, por falar em manjedoura, que estranho! Parece não caber no quadro, por isso os presépios tanto a enfeitam. Embelezam sua feiúra. Escondem seu mau cheiro. De todo jeito, foi na manjedoura que floriu a amizade de Deus. Estranho!

E Herodes não gostou, mandou procurar o menino. Pediu que fosse denunciado seu paradeiro. E para apanhá-lo, mandou logo matar duas mil crianças que cor­riam pelas ruas de Belém. Herodes, este chefe todo-poderoso, não se agradou dessa amizade de Deus.

É que Deus vem a nós de jeito estranho, inesperado. Faz-se rodear por gente que nem gente parece ser, por estes tipos que vivem junto às manjedouras e aos lixos do mundo. Começa por convidar pastores de ovelhas, gente difamada e malvis­ta. Convoca doentes e doidos, felicita empobrecidos. E tudo fica às avessas.

Estava tudo tão claro e ordenado. Uns no poder e outros excluídos de tudo. Herodes lá no palácio e os demais cá na miséria. Todos já se haviam acostumado. Davam-no como aceito, normal, quase natural. E Deus põe tudo às avessas. Não vai ao palácio para nascer por lá. Vem pela manjedoura, rodeado de gente desfigu­rada, com cara e cheiro dos porões da humanidade. Que Natal estranho!

* José Pardinho Souza é filósofo e teólogo, professor de filosofia, história, sociologia e antropologia cultural.

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