sexta-feira, 6 março, 2026
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Outro mundo é preciso, outro Brasil é necessário

“Pois, qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir?” (Lucas 14.28 – Leia também Lucas 12.16-21).

            Nesta semana estava refletindo sobre a história do Brasil e suas fases. Constatei que recentemente celebramos os 523 anos do descobrimento do Brasil e 201 anos, ou seja em 1822, Dom Pedro de Alcântara de Bragança – à época príncipe regente do Brasil – proferiu o célebre grito “Independência ou morte!”, às margens do Rio Ipiranga.

E há exatos 133 anos que aconteceu a Proclamação da República do Brasil, ato que resultou na derrubada da Monarquia e na instauração da República no Brasil. Durante todo este período o Brasil já teve 36 pessoas que estiveram à frente da presidência ao longo de mais de 100 anos de república, alguns deles em mais de um momento, totalizando assim 39 presidências até o ano de 2023.

Considerando que “O Brasil é uma república presidencialista desde 1889” todos os que ocuparam este cargo apresentaram projetos que prometiam transformar o Brasil num verdadeiro paraíso. Podemos citar, por exemplo, dois deles: O governo do período de 1990 até 1995 apresentou como lema BRASIL: UM PROJETO DE RECONSTRUÇÃO NACIONAL. Sem combinar o Presidente eleito para o período de 2023 à 2026 adotou o lema: PLANO DE RECONSTRUÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DO BRASIL OUTRO MUNDO É PRECISO OUTRO BRASIL É NECESSÁRIO.

Constato que, quando alguém fala em reconstrução está apontando para a existência de algo mal projetado, mal construído, avariado ou em ruínas. Imperiosa torna-se, então, uma parada. Precisa-se rever o plano ou a planta inicial. Avaliar onde começou o desvio. Diagnosticar a causa do insucesso e determinar até onde o existente estava certo, até onde deve ser desmanchado para que não se corra o risco de reconstruir sobre base frágil ou debilitada, reincidindo assim no erro. Neste procedimento é imprescindível que se tenha claramente definida a obra ou o produto final desejado.

Então, mesmo que eu quisesse acreditar nas intenções dos governantes, defrontar-me-ia com a seguinte verdade: O povo é a viga mestra e o pilar central de qualquer nação, mas o povo é, por princípio, também massa disforme que se transforma e se molda conforme a inspiração e a vontade daquele que segura o cin­zel – o instrumento usado para esculpir.

Fico triste e indignado quando, até com frequência, ouço dizer que “o povo não presta.” O povo será sempre imagem daquilo que é investido nele. Nunca, em quase 201 anos de “independência”, foi investido tão pouco no povo, em sua saú­de, sua infância, sua velhice, sua instrução, sua cultura, sua sobrevivência como nes­te fatídico ano de 2023 em que estou a juntar essas amargas reflexões, na condição de um veterano professor de história.

Contemplando a pretenciosa chamada de um plano de reconstrução da nação brasileira, antevejo não só a vontade de descarregar a responsabilidade no atual quadro de descalabro nos governos anteriores, evidentemente também culpados, como o colossal narcisismo de se arvorarem por antecipação em Salvadores da Pátria.

É muita pretensão, mas quem sabe? Felizmente, a semente da esperança será a última a morrer! A minha impressão ao meditar sobre a “Reconstrução” parece que os organizadores tomaram o seguinte: “Nós somos uma nova geração que veio depois do desastre. Não queremos remoer a polarização e vamos olhar para frente”. Entendo a escolha dos organizadores. Vamos juntar os cacos do que sobrou de país e tentar reconstruir, da melhor forma possível.

* Filósofo e Teólogo – professor de filosofia, antropologia, história e sociologia.
pardinhorama@gmail.com

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